Podem continuar a visitar-me
aqui ou
no blogue que andava perdido:
http://barcosflores.blogspot.com/
Abraços aos fidelissimos desta causa...
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[só se sabe quando se sabe pouco]
Em boa verdade aprendemos sempre em livros que não somos capazes de avaliar.
O autor de um livro que fôssemos capazes de avaliar teria que aprender connosco.
Muitos há que têm orgulho no que sabem. Face ao que não sabem costumam ser arrogantes. No fundo só se sabe quando se sabe pouco. À medida que cresce o saber, crece igualmente a dúvida.
Johann Wolfgang von Goethe, in "Máximas e Reflexões"
In http://www.citador.pt
VERÃO
O que há de novo na tarde
Verdadeiramente tarde
Verdadeiramente terna
É este gosto novo de cantar
É esta fome absurda de verão
Amélia Pais
No Entardecer dos Dias de Verão
No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...
Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Através da noite
Ela está exposta na sua frágil frescura
e um pouco mais longínqua e despojada.
Ele procura-a no cimo da montanha
ou numa vertente vertical. A noite é calma,
um barco atravessa o mundo. Junto de um rio
brilham chamas sem rumor. Dispersas
são as imagens e as vozes, mas reunidas
num outro mundo mais sereno e vagaroso.
Ele soletra a pedra nupcial e misteriosa.
Um grito rápido de pássaro atravessa a clareira.
Entre duas árvores cintila a Cassiopeia.
Passam esquivas sombras sob os ramos das árvores.
António Ramos Rosa
MINHA MÃE...
– Minha mãe, lá vem o Jorge
No seu cavalo montado.
– Como estás, ó Juliana
Como estás e tens passado?
– Ainda ontem me disseram
que tu estavas p’ra casar.
– É verdade, ó Juliana,
Que te vou a convidar.
– Espera aí um bocado,
Espera aí um bocadinho;
Eu vou ali ao sobrado
Buscar um copo de vinho.
– O que meteste no copo,
O que meteste no vinho?
Trago a minha vista turva
Não vejo bem o caminho.
– Quando a minha mãe julgava
Que tinha o seu filho vivo...
– Também a minha julgava
Que tu casavas comigo...
Torradas, novas torradas,
Que a faca corta o limão,
A menina Juliana
É mulher de opinião.
Nota: Este romance aparece no "Cancioneiro Popular Português", de Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça, recolhido em Glória do Ribatejo, Salvaterra de Magos.
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A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
Daniel Faria |
Confesso: não sou capaz de deitar livros fora. De resto, eu pertenço a uma geração que tem muita dificuldade em deitar fora seja o que for. Por isso os objectos vão-se acumulando e eu perguntando-me "o que é que faço a isto?" Já pensei em fazer uma trouxa e ir vendê-los para a Feira da Ladra, mas os meus horários não me permitem ficar lá uma data de horas à espera de ver aparecer multidões interessadas em galhardetes, quadros com o brazão de juntas de freguesia de terras que nem sei onde ficam, frascos de perfume há muito vazios, amostras de tecidos, restos de lãs que nem para quadrados de mantas de patchwork já servem, etc.
Mesmo assim, de vez em quando tapo a vista com a mão, encho-me de coragem, e reúno sacos a abarrotar de lixarada, e venho colocá-los à noite ao lado dos contentores, não vá passar alguém que ainda lhes descubra serventia. Mas livros é que não. Livros não sou mesmo capaz. O pior é que, para lá de receber muitos livros (os meus amigos pertencem quase todos ao ramo…), eu ainda sou uma compradora compulsiva! Compro livros porque são de autores de que eu gosto, ou porque li uma crítica que me entusiasmou, ou até - assumo… - porque têm capas que são um espanto… Mas às vezes, prometem muito e dão pouco. Então, periodicamente, encho caixotes de livros que vou enviando para bibliotecas ou escolas: livros que sei que nunca mais vou reler, livros que tenho em várias reedições, ou até livros de que eu, pessoalmente, até posso não gostar mas entendo que outros amem de paixão.
Mas não é desses que estou a falar: refiro-me àqueles que não mereceriam (se eu fosse capaz…) outro destino a não ser o lixo. Tão maus, ou tão inúteis, ou tão fora de prazo que não me passa pela cabeça dá-los nem ao meu pior inimigo. Nos primeiros tempos da revolução, quando, de repente, descobrimos que podíamos viajar para os países até então proibidos da Europa de Leste, era fatal: regressávamos todos de lá vergados ao peso de toneladas de volumes encadernados com todas as intervenções dos camaradas nos diversos órgãos de soberania dos seus países. E - requinte dos requintes! - muitos deles na língua original. Lembro-me de ter tido de comprar um saco só para nele enfiar os discursos do camarada Jivkov, que me ofereceram na minha primeira ida à Bulgária. Digam-me: o que é que eu lhes faço?
Contava o meu querido Alçada Baptista que uma das suas tias, ao ver-se confrontada com a pergunta de uma das criadas ("o que é que eu faço às listas velhas do telefone?") terá respondido: " dê a um pobrezinho."
Se calhar, vou seguir-lhe o exemplo. Tal como eu, ela também era de um tempo em que não se deitava nada fora.
Alice Vieira -JN,9.05.09
Dado que o meu anterior blogue - ao longe os barcos de flores - foi, sem que eu saiba o porquê, apagado, mudei-me para os blogues do sapo.Espero que continuem a visitar-me agora neste.Na altura em que foi apagado o blogue ia em cerca de 220 000 visitas...felizmente guardei em arquivos toddas as entrada e comentários até fim de maio e em doc. igualmente as entradas.Espero dar-me por aqui bem.
Deixo um poema de JOSÉ SARAMAGO, ontem falecido:
As palavras são novas
As palavras são novas: nascem quando
No ar as projectamos em cristais
De macias ou duras ressonâncias
Somos iguais aos deuses, inventando
Na solidão do mundo estes sinais
Como pontes que arcam as distâncias.